Arquivo da categoria: Cidadania

Reflexões em tempos de tormenta

Revista Época do dia 22/1/2011 discorrendo sobre a solidariedade em meio à tragédia vivida no Rio de Janeiro
 
Muitos costumam dizer que Deus é brasileiro, pois por aqui não nos preocupamos com terremotos, tsunamis, tornados e vulcões cuspidores de lava. No entanto, achar que somos à prova de tudo é um ledo engano.
 
Por habitarmos um país tropical estamos suscetíveis à ação de grandes tempestades, que surgem principalmente no verão e causam grande destruição. No início do ano tivemos como exemplo a catástrofe ocorrida na Região Serrana do Rio de Janeiro, um evento lastimável que deixou centenas de desabrigados, além de outras tantas pessoas que tiveram suas vidas brutalmente interrompidas.
 
O caos vivido pelo Rio nunca será esquecido. Permanecerá em nossas lembranças como um momento de tristeza e comoção nacional, em que se misturaram impotência — pela evidenciação da pequenez dos seres humanos diante da descomunal força da natureza — e solidariedade — palavra que descreve bem a atitude de homens e mulheres que não pouparam esforços para ajudar e apoiar os milhares de fluminenses necessitados. E mais: todos os brasileiros envolvidos naquela imensa corrente solidária em prol dos cidadãos afetados pelas chuvas fizeram o que fizeram sem pedir ou esperar nada em troca, simplesmente por quererem o bem aos seus semelhantes, o que demonstrou o gigantesco valor dos mais de 190 milhões de corações verde-amarelos.

Bullying, um problema de todos

Baixinho, gorducho, dentuço e negrinho. Socos, pontapés, empurrões e tapas. A popularização do termo bullying surgiu recentemente, mas a existência de situações envolvendo insultos, humilhações, hostilidade grupal, discriminação, apelidos pejorativos, intimidação, maus-tratos e agressão, tanto em escolas e universidades como em ambientes de trabalho e até mesmo familiares, nós já conhecíamos de longa data.
 
Vista como uma das formas de violência que mais cresce no mundo, o bullying está intimamente ligado à falta de capacidade de lidar com as diferenças e singularidades presentes na sociedade, além da cultura do terror, do preconceito e da intolerância que parecem arraigadas dentro de pequena parcela da população que continua a ser a infeliz massa emburrecida do país, grilhões que restringem a plena evolução do país e seus passos rumo ao progresso.
 
Combater, portanto, o bullying como problema social, agente desencadeador de consequências trágicas como doenças psicossomáticas, traumas, suicídios e mortes, e não como fenômeno isolado e restrito a um grupo, é essencial para darmos fim a esse comportamento bestial, destrutivo. Diante disso, a participação e o engajamento das escolas e das famílias no processo de educação das crianças deve começar desde cedo, para que os pequeninos tenham uma sólida formação de base e de berço. Quanto ao Estado, ele deve agir de forma enérgica e irredutível, lançando sobre os infratores todo o peso de sua mão, a fim de coibir a prática do bullying. Penas de reclusão, trabalhos comunitários supervisionados e altas multas são atitudes interessantíssimas na guerra contra os valentões que espalham o medo e o pânico em corredores, salas, banheiros e ruas de todo Brasil e permanecem impunes.
 
Em síntese, lutar contra o bullying e não ser conivente com ele é um passo importante na construção e melhoria do país que dizem ser abençoado por Deus e bonito por natureza.

Ser sustentável é…

 
…, basicamente, produzir e consumir somente o necessário, além, é óbvio, de mobilizar-se quanto ao seu papel de agente transformador na construção de um planeta mais limpo, saudável, preservado, habitável.
 
A definição do que é ser sustentável, escrita acima, soa como uma utopia, certo? Ainda mais numa sociedade em que as pessoas valem aquilo que têm e podem desfrutar, não é? Pedir, então, para que ricos e pobres adiram à sustentabilidade ocasionaria situações totalmente antagônicas. No caso dos ricos, seria como obrigá-los a abrir mão do seu excesso de luxo, de sua vaga no high society e de sua porção diária de pratos finos e se contentassem com um padrão de vida menos abastado, com feijão, arroz, salada e bife na hora do almoço, acompanhado, claro, de dois litros de refresco artificial. Já para os pobres, seria como condená-los a uma vida sem a esperança de um dia conseguirem as regalias que o capitalismo dá aos afortunados.
 
Contrariando o que geralmente se pretende fazer acreditar, colocar o sustentável – ou o ecologicamente correto – na condição de primeiro na lista de prioridades da população, que muita gente ilustrada ainda teima em afirmar ser fácil de mais, não é uma coisa simples. Requer empenho, determinação e uma pitada de boa vontade. Quem sabe daqui a alguns anos, quando cidades ficarem no escuro, cabeças forem raspadas para se manterem limpas sem água, a comida for sintética por falta de solos férteis e clima favorável, assaltos por um galão de água forem banais e o oxigênio ficar degradado por ausência de árvores e algas, a bestialidade do bicho-homem cesse de uma vez por todas.